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TRANSTORNO DO ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO (TEPT) E O ABUSO SEXUAL INFANTIL: UMA ANÁLISE PSICANALÍTICA

  • Freud
  • 5 de nov. de 2015
  • 7 min de leitura

Universidade de Brasília

Disciplina: Psicologia da Personalidade Turma: A

Professora: Elisa Walleska Krüger Costa

Aluno: Stefanne Moreira Bezerra Matrícula: 12/0042053

A violência sexual vem sendo considerado um problema de saúde pública, pois afeta o desenvolvimento da criança, quando é um ato contra crianças e adolescentes, que pode estender-se até a idade adulta, ocasionando problemas sociais, cognitivos, comportamentais e emocionais ao indivíduo.


Entre as categorias de maus tratos em crianças e adolescentes, o abuso sexual compreende todo ato ou jogo sexual, relação hetero ou homossexual, que pode variar desde intercurso sexual com ou sem penetração (vaginal, anal e oral), voyeurismo, exibicionismo até exploração sexual, como a prostituição e a pornografia (MARQUES, 1994).


As crianças, vítimas de abuso sexual, além de sofrerem os maus tratos físicos durante o ato de violência, tornam-se mais vulneráveis a outros tipos de violência, a longo prazo, como distúrbios sexuais, prostituição, uso de drogas, e suicídio. Além de enfrentarem o risco de adquirirem doenças sexualmente transmissíveis, como por exemplo, o vírus da imunodeficiência humana (HIV), e o risco de um gravidez indesejada, levando à possibilidade de um aborto. Diante desses eventos, é notável que a violência sexual vem sendo acompanhada de uma série de consequências que afeta a saúde pública, não apenas em relação às vítimas da violência, mas também aos agressores. Pois estes são pessoas que possivelmente, sofreram abuso sexual em alguma fase da vida, apresentando um quadro psicológico clínico que necessita de tratamento e acompanhamento adequado. Observamos, então, que há uma necessidade de tratamento para ambos os lados, porém muitas vezes esse enfrentamento para a sociedade ainda é muito difícil.


Em relação aos agressores, eles podem ser provenientes do ambiente familiar da criança ou não. Chama-se de abuso sexual infantil intrafamiliar, também chamado de incesto, quando o agressor é algum parente da família da crianças, geralmente alguém que está presente no cotidiano da criança. A probabilidade de ocorrências de abuso intrafamiliar é maior em parentes que residem no mesmo domicílio. O abuso extrafamiliar ocorre fora do âmbito familiar, podendo ser cometido por pessoas desconhecidas, ou até mesmo conhecidas como, por exemplo, o vizinho.


Estudos apontam algumas consequências emocionais, sociais, cognitivas e comportamentais em crianças que foram vítimas de abuso sexual. Elas podem apresentar dificuldade de concentração, dificuldade de confiar no outro, medo e desamparo, fugas de casa, choro frequente, irritabilidade, pesadelos, comportamento sexualizado, isolamento social, baixa estima, queixas psicossomáticas, e até mesmo quadros psicopatológicos.


Entre os quadros psicopatológicos, o transtorno de estresse pós traumático (TEPT), transtorno de estresse agudo, dissociação, transtornos de ansiedade, transtornos de humor, depressão, transtorno de abuso de substancias, transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH), transtornos alimentares, enurese e encoprese têm sido associados à ocorrência de abuso sexual na infância.


Freud, em sua teoria de desenvolvimento humano, defende que o desenvolvimento de um indivíduo passa por diversas modificações marcantes em relação aos seus desejos e a forma como esses desejos são satisfeitos. As fases psicossociais do desenvolvimento são divididas em cinco (oral, anal, fálica, latência e genital) caracterizadas por uma zona erógena. Quando um indivíduo não progride normalmente de uma fase a outra, permanecendo envolvido em uma fase particular, Freud considera que essa pessoa tem uma fixação nessa fase do desenvolvimento. A fixação é um conflito ou desligamento emocional não resolvidos, causado por excessos ou frustações.


Partindo dessa teoria psicanalítica, podemos afirmar que dependendo da fase de desenvolvimento que a criança sofra um abuso sexual, ela poderá desenvolver algum transtorno psicológico, a partir desse trauma na infância. Pois essa criança estará, de maneira inconsciente, tentando satisfazer o desejo correspondente a fase de fixação ou até mesmo a falta de motivação de progresso para a outra fase, por motivos de excessos. Como por exemplo, na fase oral, a criança que sofre algum trauma nessa fase, tentará obter prazeres que se centram na boca, pessoas que possivelmente serão fumantes, roeram as unhas, apresentaram algum transtorno alimentar, entre outros. Por esse motivo, as pessoas que sofreram abuso sexual na infância poderão apresentar diversos quadros psicopatológicos, como já citados.


Entre os quadros psicopatológicos, estudos mostram que o Transtorno de estresse pós traumático (TEPT) é um dos transtornos mais frequente em vítimas de abuso sexual, destacando as crianças e mulheres como a população mais associada a essa psicopatologia.


Especificamente, em casos de crianças vítimas de abuso sexual, a prevalência do TEPT pode variar entre 20 a 70% dos casos (NURCOMBE, 2000), sendo que meninas tendem a desenvolver mais sintomas de TEPT do que os meninos, em torno de 35% e 20% dos casos, respectivamente (ACKERMAN, NEWTON, MCPHERSON, JONES, &DYKMAN, 1998). Dois estudos clínicos, realizados no Brasil, com meninas vítimas de abuso sexual encontraram em torno de 70% do diagnóstico de TEPT entre as vítimas (BORGES, 2007; HABIGZANG, 2006).


Alta prevalência de ansiedade, transtorno de humor, TEPT, de transtorno de humor, e do transtorno da personalidade borderline também foi encontrado em mulheres que sofreram abuso sexual na infância (MACMILLIAN, 2001; ZAVASCHI, 2006), indicando que as consequências do abuso sexual podem persistir ao longo da adolescência e da vida adulta.


A presença do diagnóstico de TEPT foi de 36,3% entre as crianças abusadas sexualmente (RUGGIERO, 2000) e, em outro estudo, observou-se que estas crianças apresentaram significativamente mais sintomas de TEPT, quando comparadas a crianças que sofreram abuso físico (RUNYON & KENNY, 2002). Desta forma, o TEPT é apontado como o transtorno psicológico mais associado ao abuso sexual infantil.


O transtorno do estresse pós traumático (TEPT) é um distúrbio da ansiedade caracterizado por um conjunto de sintomas e sinais físicos, emocionais e psíquicos em decorrência do portador ter sofrido algum evento traumático que houve ameaça à vida ou à integridade física de si próprio ou de terceiros.


Os sintomas são agrupados em três categorias e podem demorar meses ou anos para surgirem. Os três sintomas são: reexperiência traumática, esquiva e distanciamento tradicional e a hiperexcibilidade psíquica.


A reexperiencia traumática é quando o portador tem pesadelos, recordações com medo intenso, flashbacks, entre outras lembranças em que se sente ou age como se estivesse vivenciando novamente o evento traumático.


A esquiva, o portador tenta evitar pensamentos, sentimentos, conversas, lugares, pessoas, que o fazem lembrar dolorosamente do trauma.


A hiperexcibilildade, o portador apresenta dificuldades para dormir, sudorese, dor de cabeça, dificuldade de concentração, irritabilidade e tontura.


O trauma psicológico descrito por Freud é definido como um afluxo de excitações excessivo em relação à tolerância do indivíduo e à sua capacidade de dominar e de elaborar essas excitações. Esse “despreparo” do indivíduo diante de uma situação traumática faz com que os efeitos desse trauma (sintomas) surgem após a introdução nociva do agente causador, um período chamado por Freud de “período de incubação”. Como por exemplo, uma menina com sete anos de idade que foi tocada em suas partes intimas pelo seu vizinho, enquanto este ofereceu uma carona até a escola. Essa menina, ao entrar na adolescência, por volta dos 12 anos de idade, apresentará uma reação de angustia quando percorrer o mesmo caminho que fez ao ir à escola, ver um carro parecido, quando alguém oferecer carona, entre outras situações que a fazem lembrar da ocasião. Essa reação é desenvolvida no decorrer da vida do sujeito, acompanhada por ansiedade, fobia e depressão.


“A caracterização de um evento como traumático não depende somente do estímulo estressor, mas, entre outros fatores, da tendência do processamento perceptual do indivíduo.” Ou seja, devemos considerar o individuo como um ser único, nem todo mundo que sofreu um trauma em algum momento da vida irá apresentar problemas psicopatológicos. Mas, temos evidências que o abuso sexual, na sua maioria, gera consequencias psicológicas sérias no decorrer da vida da vítima.


Partindo dessa análise de Freud, podemos começar a compreender o porquê, muitas vezes, crianças que sofreram abuso sexual podem demorar a apresentar os sintomas do TEPT depois de meses ou até mesmo anos.


Em relação a reeexperiencia traumática, podemos associa-la no que Freud definiu de “compulsão a repetição”. Entende-se compulsão a repetição quando um indivíduo repete situações traumáticas ocorridas não elaboradas.

Quando um indivíduo com TEPT revive a experiência traumática por meio de pesadelos, flashbacks, pensamentos, entre outros casos; ele está repetindo aquilo que não foi elaborado inconscientemente.

A compulsão a repetição pode aparecer também nos comportamentos repetitivos nas brincadeiras de crianças, e que serve para dominar situações de perdas ou experiências traumáticas, nesse caso especifico, o abuso sexual.


O tratamento para o transtorno do estresse pós traumático inclui a terapia psicodinâmica, terapia medicamentosa e terapia cognitivo-comportamental. Freud, desenvolveu o método da cartase, em que o paciente só melhorava dos sintomas traumáticos quando experimentava novamente a vivência traumática com uma emoção intensa. A recordação do trauma sem a emoção não provocava reversão dos sintomas. Porém, quando o TEPT vem em decorrência de um abuso sexual infantil, acredito que em muitos outros casos, fica inviável a aplicação desse método desenvolvido por Freud. Há outras possibilidade mais possiveis de se aplicar em vítimas de abuso sexual.




Diante do exposto, podemos observar que o abuso sexual na infância ocasiona uma serie de consequências para a vida da criança, afetando no seu desenvolvimento aspectos emocionais, comportamentais, cognitivos e sociais. Expandindo-se para um problema de saúde pública, no qual deve-se ter uma visão diferenciada tanto para as vítimas quanto para os agressores. Pois, analisando de forma geral, porém, profunda, as vítimas de hoje serão os agressores de amanhã. Isso se, não houver um acompanhamento psicológico adequado para ambos os lados. Por esse motivo, é válido ressaltar a importância de um acompanhamento psicológico e psiquiátrico em crianças vítimas de abusos sexual, assim como seus agressores.

As intervenções precoces em crianças que sofreram abuso sexual junto com sua família é importante, pois como na maioria dos casos os agressores são pessoas que convivem com a criança na mesma residência, e que a crianças por medo ou ameaça não consegue acusar o agressor. É também, de certa forma, uma prevenção para que ela não desenvolva o transtorno do estresse pós traumático, visto como um dos transtornos mais evidente em crianças abusadas sexualmente.

REFERÊNCIAS

Disponível em: https://psicologado.com/abordagens/psicanalise/ampliando-as-visoes-sobre-a-formacao-da-neurose


Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Desenvolvimento_psicossexual


Disponível em: http://drauziovarella.com.br/letras/e/transtorno-do-estresse-pos-traumatico/


F. HABIGZANG ; SILVIA H. KOLLER violência contra crianças e adolescentes: teoria, pesquisa e prática. Porto Alegre : Artmed, 2012.


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LESSINGER B. ; DALBOSCO DELL’AGLIO. Relações entre abuso sexual na infância, transtorno de estresse pós-traumático (TEPT) e prejuízos cognitivos. Psicol. estud. vol.13 no.2 Maringá Apr./June 2008


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