Serial Killers e os transtornos de personalidade
Universidade de Brasília
Disciplina: Psicologia da Personalidade Turma: A
Professora: Elisa Walleska Krüger Costa
Aluno: Thaís Lunni Mota Campos Matrícula: 11/0020740
Psicopatologia é um termo composto por três palavras gregas: "psychê" (a psique), "pathos" (o sofrimento) e "logos" (o conhecimento). Ou seja, o conhecimento do sofrimento da psique. Com base na biologia e neurociência em conjunto com os conhecimentos psicanalíticos, psicológicos, antropológicos, sociológicos, entre outros, a psicopatologia é, para Karl Jaspers, uma ciência pura. Focando seu desenvolvimento no conhecer, esta ciência se difere da psiquiatria que tem como função diagnosticar, tratar e prevenir doenças mentais.
Karl Jaspers, humanista formado em medicina, com ênfase em psiquiatria, e em filosofia, fundou a Psicopatologia como disciplina fenomenológica. O caráter pragmático da ciência inspirava Jaspers, porém, a unilateralidade prática da ciência não explica o ser humano como um todo. Propôs então, em 1913 no seu livro Psicopatologia Geral, uma classificação "não dogmática" sobre os transtornos mentais, levando em consideração tanto as explicações causais dos fenômenos quando as vivências subjetivas do sujeito.
Pela ótica fenomenológica de Karl Jaspers, o ser humano é plural e não deve ser definido rigidamente de acordo com conceitos pré estabelecidos pela ciência ou sociedade. “Aqui todo trabalho se relaciona com um caso particular. Não obstante, para satisfazer a exigência decorrente dos casos particulares, o psiquiatra lança mão, como Psicopatologista, de conceitos e princípios gerais (...) seus limites consistem em jamais poder reduzir o indivíduo humano a conceitos psicopatológicos” (JASPERS, 1913).
Quando se fala em saúde, transtornos e doenças mentais, logo se pensa nos psicopatas e sociopatas. Definição desconhecida pela maioria das pessoas, o "psicopata" sofre, na verdade, de transtorno de personalidade anti-social. Este transtorno de personalidade é classificado pelo DSM-IV (Manual de Diagnóstico e Estatística dos Transtornos Mentais, 4ª Edição, classificação padronizada de transtornos mentais feito pela Associação Norte-Americana de Psiquiatria) como "um padrão invasivo de desrespeito e violação dos direitos dos outros(...). Incapacidade de adequar-se às normas sociais implicando atos ilícitos, propensão para enganar, mentir, ludibriar, irresponsabilidade, desrespeito pela própria segurança e dos outros, irresponsabilidade consistente, ausência de remorso". Os indivíduos classificados como anti-sociais devem ter no mínimo 18 anos, antes disso classifica-se como transtorno de conduta.
Indivíduos classificados como anti-sociais sentem necessidade de estimulação e têm tendência ao tédio, mais propensos, assim, a cometer violência que pessoas mentalmente saudáveis. Os anti-sociais entendem que seus atos não se enquadram nas normas da sociedades porém não tendem a se importar.
Robert Hare, psicólogo criminal canadense, desenvolveu um instrumento de pesquisa para diferenciar a condição de psicopatia. A escala PCL-R é um checklist dos 20 itens seguintes: 1) loquacidade/charme superficial; 2) auto-estima inflada; 3) necessidade de estimulação/tendência ao tédio; 4) mentira patológica; 5) controle/manipulação; 6) falta de remorso ou culpa; 7) afeto superficial; 8) insensibilidade/falta de empatia; 9) estilo de vida parasitário; 10) frágil controle comportamental; 11) comportamento sexual promíscuo; 12) problemas comportamentais precoces; 13) falta de metas realísticas em longo prazo; 14) impulsividade; 15) irresponsabilidade; 16) falha em assumir responsabilidade; 17) muitos relacionamentos conjugais de curta duração; 18) delinquência juvenil; 19) revogação de liberdade condicional; e 20) versatilidade criminal.
Cada item tem uma pontuação de 0 a 2, resultando, assim, em no máximo, 40 pontos. Resultados de 0 a 12 enquadram as pessoas como "não criminosas" e de 12 a 40 como criminosas.
É classificado como serial killer um indivíduo que comete três ou mais homicídios seriados em um intervalo de tempo variável. Um estudo realizado por Stone, mostrou que 86,5% dos serial killers entrevistados pontuavam no instrumento de pesquisa de Hare acima de 23 pontos, sendo considerados psicopatas. Aproximadamente metade dos serial killers também apresentavam transtorno de personalidade esquizóide e em 87,5% dos participantes manifestava-se também o transtorno de personalidade sádica.
O transtorno de personalidade sádica é comum surgir em pessoas que sofreram agressões físicas, sexuais ou/e verbais severas na infância transforando-as em adultos violentos. Quando relacionado com o transtorno de personalidade anti-social, como na pesquisa mostrada acima, o sádico tende a ferir gravemente ou até matar suas vítimas.
Para Hare "é enorme o sofrimento social, econômico e pessoal causado por algumas pessoas cujas atitudes e comportamento resultam menos das forças sociais do que de um senso inerente de autoridade e uma incapacidade para conexão emocional do que o resto da humanidade. Para estes indivíduos - os psicopatas - as regras sociais não são uma força limitante, e a ideia de um bem comum é meramente uma abstração confusa e inconveniente". A empatia não é um sentimento, uma capacidade possuída pelos anti-sociais.
Porém, de acordo com a fenomenologia de Karl Jaspers, como já apresentado, o profissional da área da saúde não deve reduzir seu paciente a conceitos psicopatológicos, analisando tanto os diagnósticos quanto seus sofrimentos, vivências e traumas que causaram esses transtornos. Não se deve taxar como impossível, incurável alguém baseado na presença de transtornos de personalidade anti-sociais, sem ao menos investigar a fundo sua história.
Referências
MORANA, Hilda C P, STONE, Michael H e ABDALLA-FILHO, Elias. Transtornos de personalidade, psicopatia e serial killers. Rev. Bras. Psiquiatr., Out, 2006, vol. 28, suppl. 2, p. s74-s79. ISSN 1516-4446. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/rbp/v28s2/04.pdf>. Acesso em 03/11/2015.
LIMA, José M de. Jaspers e a autonomia da Psicopatologia.
<http://filosofiacienciaevida.uol.com.br/ESFI/Edicoes/37/artigo144540-1.asp>. Acesso em 03/11/2015
Psicopatologia. Portal da Saúde. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/wiki/Psicopatologia>. Acesso em 03/11/2015.
Robert Hare. Disponível em:
<https://pt.wikipedia.org/wiki/Robert_Hare>. Acesso em 03/11/2015.
DSM-IV. Disponível em:
<http://www.psiquiatriageral.com.br/dsm4/sub_index.htm>. Acesso em 03/11/2015.