Reflexos do universo de dentro
- Flávia Martins
- 5 de nov. de 2015
- 5 min de leitura

Universidade de Brasília
Disciplina: Psicologia da Personalidade Turma: B
Professora: Elisa Walleska Krüger Costa
Aluno: Flávia Martins Godinho Matrícula: 12/0117851

O ser humano tem uma necessidade muito grande de mostrar para o mundo que está moralmente correto, ou seja, sabe das suas limitações, o que é bom e o que é mau, tentando agir sempre de acordo com os padrões estabelecidos, tudo visando uma boa convivência em sociedade.
Somos formados pelo consciente e inconsciente, duas partes importantes que determinam a nossa personalidade, as nossas atitudes e o meio influencia muito nas decisões que tomamos no dia a dia. Segundo Freud, somos formados pelo ID, Ego e Superego, um conjunto de “forças maiores” que interferem diretamente em nosso comportamento. O ID é nossa energia psíquica, que atua em muitos de nossos impulsos primitivos importantes, como comer, dormir; sem ele, não sobrevivemos. O Ego é uma força mediadora que ajuda no equilíbrio entre o ID (nossa necessidade compulsória) e o Superego, que é nossa parte que representa a moralidade, sempre freando nossas decisões mais obscuras, vindas do ID. A falta de equilíbrio entre essas forças pode gerar diversos problemas psíquicos graves, ou até mesmo causar a morte do individuo.
Viver em uma sociedade extremamente conservadora que limita, ou até mesmo extingue, alguns de nossos maiores desejos é dos motivos pelos quais muitas pessoas se veem hostilizadas em praticar alguns atos, guardando essas vontades no subconsciente. Enquanto guardamos essas vontades, também estamos em alerta quanto as atitudes do outro, sempre punindo quando não age de acordo com as regras estabelecidas, sem ao menos saber a verdadeira história por trás do ato.
Em muitos casos, quando vemos ações de Serial Killers, agressores, estupradores, pedófilos, homicidas, esquecemos de analisar a conduta como um todo, e apenas o julgamos de acordo com a moral que conhecemos, com as regras já estabelecidas na sociedade e muito pouco fazemos para reparar o dano causado nessa pessoa.
A Fenomenologia, uma teoria investigada e estabelecida pelo filósofo Edmund Husserl juntamente com outro filósofos, é utilizada para mostrar um jeito diferente de lidar com problemas psíquicos graves, analisando a mente do indivíduo e o reflexo dela em suas atitudes.
Essa teoria apresenta a importância dos fenômenos da consciência, com o propósito de descobrir como ajudar o outro, tendo em vista que cada um tem uma mente agindo de uma forma diferente, e todas essa subjetividade pode ser estudada e trabalhada quando analisada por um grupo de psicólogos que de algum modo, vão juntar suas visões para compreender melhor o caso do paciente, a chamada intersubjetividade.
O psicólogo tem que buscar entender o outr sem nenhuma teoria ou visão pré-julgadora. É preciso conhecer o paciente a ponto de entender as suas particularidades, até mesmo para lidar melhor com a situação apresentada e saber como orientá-lo a controlar a situação. Outro ponto importante da Fenomenologia é que, mesmo usando a subjetividade para entender um fenômeno, o terapeuta não tem nenhum padrão absolutamente confiável para aprovar ou reprovar qualquer comportamento, ele precisa estudar a fundo a situação que o individuo está vivendo, descobrir uma forma de ajudá-lo na superação desse problema de forma totalmente imparcial, ele está ali como psicólogo.
A criação dessa abordagem que mescla várias teorias diferentes, já que é formada por muitos filósofos, sociólogos e psicólogos, vem para quebrar as regras estabelecidas para análise e classificação dos sujeitos de acordo com a primeira impressão do acontecimento, e vem para estudar a fundo e mostrar diversas possibilidades, de acordo com cada caso. O terapeuta que utiliza da Fenomenologia como técnica, compreende cada fenômeno como único, e o tratamento dado ao paciente depende do mundo com o qual ele interage, ou seja, onde aquele problema está inserido no subconsciente dele.
Lévinas, um filósofo francês, muito influenciado por Husserl, Heidegger e Rosenzweig acrescenta a teoria Fenomenológica a ideia de que a ética é o primeiro passo para entender o outro. Isso vem para nos mostrar que, você precisa escutar o outro, tratar o outro bem, respeitar o outro para ganhar o mesmo em troca. É esse “eu e o outro face a face” que estabelece a confiança, relação de humanidade, a alteridade. Olhar o outro com ética é estabelecer uma relação de conhecimento de si mesmo; através do outro vemos o infinito.
Julgar o outro de acordo com as sua concepção de vida, sem nem saber o que ele tem a dizer sobre o ato praticado é uma forma individualista de tratar o mundo. Nem sempre a sua verdade é absoluta, a sua vivência de mundo é correta. Matar é algo errado e quando o outro comete o crime e você se vinga praticando o mesmo crime, não é a forma humana de lidar com a situação. Você se torna tão assassino quando quem matou primeiro. Abominar o ódio, mas na primeira oportunidade que tem, espalha esse sentimento com pensamentos individualistas também não é uma forma humana de lidar com a situação. Achar errado a agressão, mas torcer para uma pessoa considerada mal caráter receber uma “lição”, também não é uma forma humana de lidar com a situação.
Quando repassamos essa teoria ética que é estabelecida na Fenomenologia, percebemos o quanto estamos presos em nossas próprias regras de conduta e cegos trilhando apenas em nosso mundo, sem conhecer o mundo do outro. Levinas nos mostra que precisamos de uma “urgência ética”, repensar os caminhos da filosofia e olhar tudo a partir de um novo prisma, esse direcionado ao outro.
Cada ser é único. Quando conseguimos ver isso claramente, observamos que o tratamento estabelecido para cada um precisa ser único também, assim construímos uma ajuda específica para aquele indivíduo. Não podemos julgar o outro pelas nossas vivências, não podemos enxergar o outro a partir dos nossos olhos que estão, na maioria das vezes, voltados para o nosso mundo, para a nossa realidade. A realidade do outro é diferente, então eu não posso fazer ao outro o que eu gostaria de que ele fizesse pra mim porque a minha realidade é diferente da dele.
Precisamos entender o que o outro é, o que ele deseja, como posso ajudá-lo a construir isso. A teoria Fenomenológica tem uma aproximação muito grande com o Humanismo e com a teoria de Jung que aborda a psicologia analítica. Não podemos separar o indivíduo de seu objeto (imaginação, percepção, linguagem, relação inter-humana) porque esses objetos são fundamentais para entender sobre a realidade que ele ocupa na vida do individuo.
A Fenomenologia hoje é usada como uma alternativa dentro da psicologia para vários casos, principalmente criminosos. Entender o que se passa no mundo do outro ajuda a entender suas atitudes. Entendendo suas atitudes você consegue ajudá-lo a mudar essa atitude ou repensá-la. O resultado disso é, em muitos casos, o não cometimento do crime novamente e até mesmo a reintegração desse indivíduo na sociedade, sem maiores danos psíquicos.
Sabe aquela frase “quem vê cara, não vê coração”? Ela se encaixa bem nessa teoria.
Referências Bibliográficas
http://www.scielo.br/pdf/estpsi/v26n1/a10v26n1.pdf
Angerami Camon, V. A. (Org.) (2005). As várias faces da psicologia fenomenológico-existencial. São Paulo: Pioneira Thomson Learning.
Bruns, M.A. de T. & Holanda, A. F. (Orgs.) (2003). Psicologia e fenomenologia: reflexões e perspectivas (2a. ed). Campinas: Alínea.
http://linux.alfamaweb.com.br/sgw/downloads/161_080812_PONTODEVISTA4-femonelologiaeapsicologiaumarelacaoepistemologica.pdf
Slides disponibilizados pela professora Elisa.
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