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PERSPECTIVA PSICANALÍTICA FREUDIANA DE PERSONALIDADE: APLICAÇÃO NO CONTEXTO DA GERAÇÃO CANGURU

  • Gabriela Regina de Souza Tanno Rodrigues
  • 5 de nov. de 2015
  • 10 min de leitura

Universidade de Brasília

Disciplina: Psicologia da Personalidade Turma: B

Professora: Elisa Walleska Krüger Costa

Aluno: Gabriela Regina de Souza Tanno Rodrigues Matrícula: 140089713

I. Introdução

A compreensão da análise freudiana relativa à formulação de uma teoria da personalidade, mesmo nos dias de hoje, revela-se de extrema importância. Incontestáveis são os avanços de Sigmund Freud quanto à quebra de tabus referentes aos estudos da sexualidade e sua relação com a psicologia e, também, quanto à formulação de uma escola psicanalista. Nesse diapasão, é notório o brilhantismo das ideias de Freud, uma vez que antes do século XX e, especialmente, antes de seu trabalho, não havia teorias da personalidade como um domínio de estudo (Friedman; Howard, 2004, p. 92). Muito embora, atualmente, se podem tecer diversas críticas ao autor em tela, faz-se mister observar a construção de sua teoria, em especial, considerando-se seu tempo histórico. As ideias levantadas por Freud não apenas marcaram todo o pensamento ocidental moderno, como influenciaram as teorias de diversos outros autores, como Jung, Adler e Horney. Contudo, nesse momento inicial, torna-se imperativo desacelerar o salto adentro da teoria da personalidade psicanalista de Freud para se esclarecer questão básica relativa à nomenclaturas adotadas pelo trabalho em tela. Deve-se compreender, a priori, o que são as teorias e como se pode caracterizar uma personalidade para, apenas então, debruçar-se sobre a rica obra do autor. As teorias, tanto quanto as doutrinas, são sistemas de ideias, isto é, “uma constelação de conceitos associados de maneira solidária, cujo agenciamento é estabelecido por vínculos lógicos (ou com tal aparência), em virtude de axiomas, postulados e princípios de organização subjacente [...]” (Morin, 2011, p. 157). Apear de os dois conceitos apresentados possuírem muitas semelhanças – uma vez que todo sistema de organização opera com um núcleo, a partir de um postulado, e com um filtro, que pode acolher ou rejeitar elementos exteriores -, divergem em alguns quesitos. As teorias são sistemas que priorizam a abertura – dado que aceitam críticas conforme os ditames da comunidade científica -, enquanto as doutrinas são sistemas majoritariamente fechados. Diz-se majoritariamente, pois há elementos externos que são acolhidos pela doutrina: aqueles que a corroboram. A teoria, por sua vez, depende do mundo empírico a sua volta, o que se denomina ecodependência (Morin, 2011, p. 162). Portanto, os sistemas não se diferenciam pelas ideias em si, mas pelo grau de abertura ou fechamento inerente a ela. Já em se buscando estabelecer as noções preliminares de personalidade, é necessário esclarecer que se trata de um termo polissemântico. Portanto, faz referência a um termo abstrato, que explicará enunciados teóricos que apontam para a individualidade ou singularidade das pessoas. Nesse ponto, busca-se apontar para aquelas características marcantes e relativamente permanentes de um indivíduo que o diferenciam dos demais. Destacam-se os atributos do “ser” em detrimento do “estar”, cujas características são meramente passageiras e sem grandes repercussões. Dessa forma, são concebidas as teorias da personalidade. A partir do notório trabalho daquele que é considerado como o “pai da psicanálise”, diversas teorias da personalidade foram criadas com a finalidade de auxiliar a compreensão das pessoas em suas singularidades, como também buscar padrões entre grupos de pessoas. Trata-se de modelos próprios com conceitos diversos, pois analisam as diversas facetas que integram a personalidade. Nesse sentido, não há o que se falar de modelos melhores ou piores que outros, pelo contrário, podem ser observados de maneira complementar, haja vista a possibilidade de escolha de uma teoria ou outra, a depender do caso concreto, quando se analisa determinado escopo de individualidade.

II. Da perspectiva psicanalítica freudiana de personalidade

Sigmund Freud concebeu a estrutura da personalidade, através da divisão da mente humana em três partes, quais sejam o id, o ego e o superego. Tal divisão diz respeito a sistemas mentais e não estruturas físicas reais (Griggs, 2009, p. 277). Essas estruturas relacionam-se com os diferentes níveis de consciência, os quais serão verificados a seguir, e são desenvolvidos a partir das fases de desenvolvimento psicossexuais, também doravante dispostos. A primeira parte em análise, o id, poderia ser traduzido literalmente do alemão como “isto”. Diz respeito à essência indiferenciada de toda pessoa, que propulsiona as forças e movimentações básicas para satisfazer aos instintos ou pulsões básicas, como por exemplo, a sexual (Friedman; Howard, 2004, p. 70). O id opera segundo a lógica do princípio do prazer, ou seja, a busca pela gratificação imediata de impulsos instintivos, sem levar em consideração as consequências de seus atos. Poder-se-ia comparar o id à parte mais animalesca da estrutura mental do ser humano. Por sua vez, o superego é a parte da estrutura responsável pela assimilação das normas e conceitos sociais e, desta forma, internaliza ideias. Concerne a estrutura semelhante à consciência, mas segue adiante (Friedman; Howard, 2004, p. 71). Destaca-se pelo elemento moralizador e inibidor, tal como uma censura frente à realidade. Por fim, a significação literal da tradução alemã de ego corresponde a “eu”. É a estrutura da personalidade que se desenvolve para lidar com a tensão entre os impulsos e as barreiras do mundo real. Compara-se a um árbitro entre o id e o superego, servindo como um mediador executivo entre os dois. Essa parte da estrutura da personalidade é construída a partir do primeiro ano de idade e busca moldar saídas realistas para os impulsos do id, sob o princípio da realidade, ou seja, o princípio que delimita a obtenção da gratificação apenas perante as inibições do superego frente fronteiras da realidade tracejada pela normatividade social vigente (Griggs, 2009, p. 277). Concebe-se que essas três partes da personalidade compreendem a mente não apenas no estágio consciente. Pelo contrário, são estudados por Freud três níveis de consciência: o consciente é aquilo que se tem ciência no momento – tal como memória a curto prazo -; a mente pré-consciente é aquela lembrança que está armazenada em nosso cérebro, a qual não estamos pensando no momento, mas é facilmente acessada – portanto, a memória de longo prazo; por último, o inconsciente, parte da mente inacessível ao pensamento consciente e habitual (Griggs, 2009, p. 276). Dessa feita, é possível perceber a mente inconsciente através de algumas manifestações, tais como os sonhos, os chistes, os atos falhos compreendidos, como lapsos freudianos, entre outros. Para efeitos didáticos, pode-se fazer uma análise comparativa entre os níveis de consciência e um iceberg, uma vez que aquela parte que se pode ver, o consciente, é apenas a pequena ponta que está para fora. Logo abaixo, imerso em águas superficiais; o pré-consciente. A maior parte da massa desse rígido bloco de gelo está submerso em águas profundas, tal como o inconsciente. Ainda em se levando em consideração a analogia do iceberg, descreve-se o id como a parte sedimentada mais no profundo abaixo d’água, no terceiro patamar da consciência, pois refere-se a energia psíquica inconsciente (Griggs, 2009, p. 276). O ego e o superego são observáveis no nível fora d’água, mas não se restringem apenas a esse. Pelo contrário, ocupam volumosa massa desde a parte seca, consciente portanto, passando em grande parte pelas águas superficiais da pré-consciência, até ocuparem pequena parte do inconsciente, não acessível. Nesse ponto, é imperativo destacar que as três partes da estrutura da personalidade – nos três níveis destacados – são desenvolvidas ao longo da vida, em especial, na infância. Sigmund Freud explicitou em suas pesquisas a existência de cinco estágios psicossexuais de tal desenvolvimento. A cada estágio, devem ser notadas as zonas erógenas e a fixação. Quando um estágio não é superado com maestria – devido à extrema gratificação ou frustração -, isso pode repercutir na personalidade da pessoa adulta, como um elemento não tratado de seu inconsciente. O primeiro estágio psicossexual decorre do nascimento aos 18 meses e tem como zona erógena boca, desse modo, descreve a fase oral. São focos da atividade sugar, morder e mastigar. Como consequência da fixação nessa fase, encontram-se problemas de apego e afeto, ingestão de substância, etc (Friedman; Howard, 2004, p. 73). O segundo estágio, por sua feita, é o anal, que decorre no intervalo de 18 meses a 3 anos, em que a criança passa a controlar suas fezes. A estimulação se dá quando a criança é capaz de reter as fezes ou evacuar e pode desenvolver fixação com consequências à organização ou desorganização excessivas, problemas com anseio ou parcimônia. Já o terceiro estágio, o fálico, há a observação dos genitais e o amplo processo de identificação de gênero da criança em relação ao pai ou à mãe. Ocorre entre os 3 e 6 anos de idade. Nesse estágio, a criança pode sentir prazer com a estimulação genital e, descreve Freud, ocorre o conflito edípico, em que o menino se sente atraído pela mãe e teme que o pai descubra e o castre, por conseguinte (Griggs, 2009, p. 281). Para as meninas, ocorreria o fenômeno da inveja do pênis, em que a menina, ao sentir inferioridade e ciúmes em relação aos meninos, percebe que a diferença fisiológica está no pênis, criando o fetiche pelo falo. Ocorre a fase de latência entre os 6 anos e a puberdade. É um estágio marcado pela ausência de zona erógena, em que há repressão dos sentimentos sexuais e, em consequência, transpassasse o foco ao desenvolvimento cognitivo e social. Normalmente, essa mudança de foco é corroborada pelo início do período escolar, em que diversas descobertas quanto ao relacionamento social são moldadas. Por último, o estágio genital perdura da puberdade em diante. Desloca-se a zona erógena de volta aos genitais, mas sua estimulação passa a ser por relações sexuais, progredindo para relacionamentos heterossexuais e íntimos adultos (Griggs, 2009, p. 282).

III. Da análise da “geração canguru” sob o prisma da psicanálise freudiana e das críticas à teoria da personalidade do autor

Não é incomum conhecer jovens adultos – por volta de 25 a 35 anos – que optam por ainda residir com os pais. De fato, pesquisas do IBGE têm comprovado a ampliação dessa tendência de os jovens escolherem sair do conforto do lar dos pais cada vez mais tarde (Entschev, 2013). Aos jovens que seguem tal tendência, denomina-se “geração canguru”. Nitidamente, são diversos os fatores que confluem para decisão singular de cada jovem tomar a decisão de prorrogar a estadia na casa de seus pais. Destacam-se as causas socioeconômicas e, também, uma mudança cultural. Sabe-se que morar com os pais representa uma vantagem econômica muito grande, pois o suporte econômico parental garante novas condições de poder aquisitivo à nova geração. Não apenas o poder de compra em sentido estrito, mas lista-se no rol de vantagens a possibilidade de se aplicar aos estudos, sem se preocupar com questões relativas à moradia, aos gastos extras com casa, aos impostos, etc. A mudança cultural é perceptível, em especial, quanto ao foco geracional, uma vez que a geração canguru diferencia-se em muito de seus pais quanto ao modo de pensar. Enquanto a primeira geração preocupava-se em alcançar a estabilidade financeira e casar-se, esses novos jovens valorizam mais o crescimento acadêmico e profissional e, também, o conforto e a segurança em detrimento da busca por independência. Certo é que a moralidade vigente influenciou para essa alteração da cultura e de pensamento, dado que a sociedade atual é bem mais liberal e, de modo geral, não apresenta mais barreiras sexuais como à época da geração anterior (Entschev, 2013). Apesar de tais mudanças de pensamento e vantagens financeiras explicarem de forma relativamente satisfatória o fenômeno, não adentram em questões profundas da psicanálise e de avaliação da personalidade de tais sujeitos da geração canguru. É nesse diapasão que, desconsiderando as especificidades que variam de caso a caso, é possível estabelecer padrões gerais de psicanálise para essa geração em tela, especialmente quanto às fases oral e fálica. Relativamente ao apego, é defensável argumentar que as pessoas da geração canguru apresentam sérias dificuldades em relação ao desapego proveniente da mudança no estilo de vida externa à tutela parental. Para Freud, a questão do desapego advém de fixação no primeiro estágio de desenvolvimento psicossexual, a fase oral. Ora, as pesquisas modernas apontam que a amamentação estabelece senso incial de segurança extremamente relevante à criança, portanto, é a receptividade da mãe um dos principais prognosticadores dos padrões de apego e do ajustamento social posterior (Pederson apud Friedman; Howard, 2004, p. 73). Nessa linha de raciocínio, não é surpreendente o fato de a geração canguru corresponder justamente aos filhos e às filhas de mães que são filhas e netas da revolução sexual feminista e que já estabeleceram seus nichos no mercado de trabalho. Mesmo que de forma indireta e inconsciente, pode-se argumentar que a geração canguru é consequência de um padrão de trabalho feminino dos séculos XX e XXI, segundo os pressupostos freudianos. Enquanto em relação ao estágio oral, argumenta-se que geração canguru apresentou dificuldades de superar a fixação, quanto ao estágio fálico, pode-se inferir um grau de boa maturidade de sobrepujamento, em especial, referente ao complexo de Édipo. Natural é o pensamento de que, para vivência familiar, necessário será superar o referido complexo – e quanto mais duradoura a convivência no seio familiar, melhor sedimentada tem que ser a questão. Isso posto, segundo o padrão de pensamento freudiano, é inteligível que o padrão liberal das família contemporâneas, com a progressiva quebra de tabus e ampliação do diálogo – ou pelo menos, com o amplo acesso à informação graças à revolução tecnológica advinda da internet – tenha afrouxado o grau de coibição da criança no estágio fálico. Disso, resultaria a diminuição da tensão entre o superego e o id, o que, em tese, poderia proporcionar um aprendizado mais ativo da criança e a superação para o próximo estágio de forma mais suave. Corrobora a argumentação acima o fato de não se supervalorizar o casamento como uma meta primordial da geração canguru. Explica-se: a visão freudiana de matrimônio, para as meninas, como consequência do fenômeno da inveja do pênis, supraelucidado, por não o objeto fálico, elas se sentem incompletas; tal incompletude seria apenas solvida quando a menina crescesse e desse luz a um menino. Desse modo, o casamento se torna uma forma de sublimação, isto é, de transformação de uma pulsão perigosa em motivação para uma atividade socialmente aceita (Loewald apud Friedman; Howard, 2004, p. 88). Classifica-se a sublimação como um elemento de defesa do self, em relação a alguma questão inconscientemente não resolvida. Desse modo, reitera-se a ideia de que a não supervalorização do matrimônio corrobora uma superação saudável ao estágio fálico. Ainda no tocante às questões femininas pronunciadas por Freud, resta salientar que há diversas críticas do movimento feminista perante o autor. A psicanálise freudiana naturaliza a submissão da mulher subjulgando-as, tal como diferentes instituições de seu tempo. Atualmente, considera-se que a inferioridade que é atribuída às mulheres não corresponde a fenômenos naturais da psique, mas a elementos estruturantes da sociedades encapados pelo machismo e pelo patriarcado. Outra crítica que contundentemente se apresenta à teoria psicanalista de Freud discorre sobre o desinteresse em estudo de diferentes culturas, enquanto se propagava a criação de um modelo com pretensões universais (Friedman; Howard, 2004, p. 90). Por exemplo, toda construção basilar no complexo edípico não se sustenta em culturas cujo núcleo familiar difere da estrutura ocidental moderna concebida por mãe, pai e filhos. Inclusive, questiona-se o que poderia ser aplicado da teoria freudiana nos novos modelos de família que buscam se estabelecer nas sociedades ocidentais atuais. Poderiam as crianças dessa faixa etária perpassarem por mais problemas quanto ao complexo mencionado quando inseridas em um modelo de família LGBT? Ou tal teoria não se adéqua a culturas diferentes à da época de Freud? São questões relevante e que devem ser problematizadas. Apesar dessas e de outras críticas ao autor, é pertinente retomar que sua teoria psicanalista de personalidade representou um passo importante não apenas para o desenvolvimento da psicologia, mas como forte influência para o pensamento moderno ocidental. Em observância de seu tempo histórico sua teoria merece grande destaque e, de tão grande magnitude, Freud pode ser equiparado para os estudos da psicologiatal quanto Darwin revolucionou as ciências biológicas.

IV. Referências bibliográficas

ENTSCHEV, Bernt. Geração Canguru. Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/economia/colunistas/talento-em-pauta/geracao-canguru-51xaiqolny2tiaolcknw8mg5q> Acesso em: 19 outubro 2015. FRIEDMAN; HOWARD. Teorias da personalidade: da teoria clássica à pesquisa moderna. Tradução Beth Honorato. Revisão técnica Antônio Carlos Amador Perreira. 2. ed. São Paulo: Pretince Hall, 2004. GRIGGS, Richard A. Psicologia: uma abordagem concisa. 2. ed. _______: Artmed, 2009. MORIN, Edgar. O método: 4. As ideias: habitat, vida, costumes, organização. Tradução Juremir Machado da Silva. 5. ed. Porto Alegre: Sulina, 2011. 320 p.


 
 
 

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