O bandido em Einstein e o Einstein no bandido.
- WILLIAM, Wanderson.
- 5 de nov. de 2015
- 8 min de leitura

Direcionamento de impulsos: O Einstein que virou o dono do morro e o dono do morro que virou Einstein. Instrumentalização dos conceitos.
Esse texto visa fazer uma abordagem sobre o direcionamento da pulsão de vida, segundo a conceituação de Freud, que seria o impulso ligado ao prazer, no entanto, não é pretendido esgotar esse conceito, apesar do que, o conceito deve ser completado com uma perspectiva oposta da pulsão de morte, que, segundo Freud, seria a da agressividade, da repetição, do retorno, da inércia pela morte. Dado esse conceito, pode-se completar a noção de pulsão de vida com a vontade de viver, de fazer coisas, da não-inércia, esses conceitos podem ser trabalhados assim pois Freud usa-os como dois planos oposto de um espectro de atitudes, de um lado a inércia, do outro o movimento, sendo que as pessoas não assumem determinada postura extrema, completamente vida ou completamente morte, elas passam por variações nesse espectro de uma ponta a outra, ambas as pulsões coexistem entre si, sendo que o indivíduo, está com elas, coexistindo, a todo momento.
Feita essa pequena explanação sobre as pulsões, é necessário dar uma pincelada rápida nos conceitos/funções de ID, EGO e SUPERGO. A grosso modo, já que isso visa ser apenas o pano de fundo do texto, pode-se dizer que o ID representa o instinto, é a vontade natural da pessoa, o animal “homem” que existe como ser biológico, o que quer apenas realizar suas vontades, o que não liga para os outros, poder-se-ia dar o nome de “idiista” ao invés de egoísta para atribuir à pessoa que só pensa em si, mas alguns conceitos estão tão enraizados no imaginário social que não valem o trabalho que demandam. No lado oposto temos o SUPEREGO, que com é de se esperar, é o oposto do ID, o animal “homem” que existe como ser social, representa o controle, a coerção, segundo Freud, em o mal estar na civilização, seria a internalização do controle social, na visão de Freud, é um controle ainda mais forte que a coerção social, pois você ainda pode fugir da pressão social ou simplesmente se esconder dela, fazendo as coisas sozinho e longe de todos, sem correr o risco de ser pego, mas, infelizmente, do SUPERGO não se pode fugir, ele está sempre com você, ele é a coerção de dentro para fora, é algo tão forte que em algumas culturas as pessoas tem o hábito de revelarem seus “pecados” para outro indivíduo, para que possa receber a “penitencia” a ser paga, ficando assim livre do controle social interiorizado, a culpa. O EGO seria o controle, o que media os dois planos opostos.
Definido com qual conceito pretende-se aplicar ao abordar o tema em questão, é importante ressaltar que todos os méritos de valor a serem usado nesse trabalho seguem o senso comum da sociedade contemporânea ocidental, seria preferível que nenhum valorização fosse feita nesse estudo - pois quando se está no campo da valorização, inevitavelmente se está no campo da política e da ideologia, que são lados opostos do estudo acadêmico, que visa a honestidade e prima pela veracidade da pesquisa - entretanto, alguns figuras de linguagens, conceitos e atitudes, por si só, já trazem uma carga social muito grande do que é o “certo” e do que é o “errado”, esse assunto também é largamente discutido por Freud em o futuro de uma ilusão. Mesmo que Freud já tenha mostrado a incoerência de determinados méritos de valores que são feitos por determinadas doutrinas ideológicas, muitas delas ainda seguem e são amplamente aceitas, então, não é também foco desse texto discutir a valorização humana do inumano e do inumano como humano, pelo contrário, o mérito de valor que a sociedade trás será uma das ferramentas de trabalho para o desenvolvimento do tema, pois mesmo que elas não sejam desejadas em trabalho acadêmicos, sua presença é o que gera a necessidade da reflexão no meio acadêmico. Isso, por si só, já mostra a sua indesejabilidade, pois na maioria das vezes, várias dessas reflexões tem como intuito extirpar o costume ou a prática de algum panorama social.
Abordagem do tema.
Não rara as vezes, é comum ver jovens perdidos na “cultura inútil” da sociedade, voltados para festas, jogos virtuais, brincadeiras, gritarias, buscando shows etc, em resumo, fazendo algo que não dá futuro, esses são rechaçados e posto em segundo plano para privilegiar os que se encontram na “nata” do futuro do país, os que estudam, trabalham, leem, estão ligado nas atividades escolares etc. Pode-se aqui notar dois grupos de jovens com características completamente opostas, ou não? Esses dois grupos criados podem ser vistos de maneira muito clara no dia a dia sem qualquer esforço, e a sociedade, via de regra, costuma rotulá-los como se estivessem no planos mais oposto possíveis, no entanto, ambos os grupos tem mais coisas em comum do que se imagina. Pelo menos nas pulsões são praticamente iguais, ambos tem uma pulsão de vida bem aflorada, o que os diferencia seria a ação do id e do superego em suas vidas, enquanto o primeiro grupo, dos “sem futuro”, não internalizaram as concepções da sociedade e são guiados mais pelo seu id, o segundo grupo, “do futuro da nação”, internalizou bem os preceitos da sociedade e os seguem da melhor maneira possível, sendo guiados pelo seu superego.
Até então é perceptível a semelhança, no desenvolvimento dado até agora, de que ambos se parecem no sentido de pulsão de vida, sendo oposto apenas seu direcionamento. Entretanto, isso é mais complexo do que parece. A pulsão de vida, quando dirigida pelo id, parecer ter a mesma correspondência da dirigida pelo superego, mas isso está longe de ser verdade. A pulsão de vida, quando dirigida pelo id é absurdamente superior do que quando dirigida pelo superego, essa afirmação gera uma inquietação no imaginário social, uma inquietação do tipo: “não importa a intensidade dessa pulsão, o grupo que vai se sobressair é o mais civilizado, o que é dirigido pelo superego”. Em termos gerais, se isolássemos as demais variáveis e se resumissem a apenas essas, seguindo a lógica de mercado, esse de fato seria o resultado, mas acontece que essa percepção vai muito além dessa análise simplista. Mas as variáveis em relações humanas não podem ser isoladas.
O fato da pulsão de vida ser superior no controle do id tem consequências bem maiores do que se pode imaginar. É fácil de notar que quando você se entrega ao id, se acaba em uma festa, passa horas no vídeo game, brinca que nem louco com os colegas, curte muito um show etc, você está bem mais esgotado do que quando está lendo, estudando, fazendo alguma atividade escolar e até trabalhando, há quem comente que o trabalho pode ser tão desgastante quanto qualquer uma das outras atividade, mas um pensamento muito simples aqui pode resolver tal impasse, a ideia não é difícil de notar, quando você passa a noite em uma festa, no outro dia está esgotado para conseguir trabalhar, mas quando você passa o dia no trabalho está todo animado e vivo para a festa à noite. A ideia aqui está mais na psique, na pulsão de vida, do que no cansaço físico em si. A pulsão de vida se expande quando quando está sendo dirigida pelo id, ou será que se contrai quando dirigida pelo superego? A resposta não vem ao caso, fato é que ela superior no id.
Com isso fica perceptível que as funções quando feitos pela direção do id são maximizadas, impulsionadas, mais bem dirigidas. Se tivesse como fazer uma comparação da “produtividade” em uma festa e no trabalho, sem sombras de dúvidas o produtividade da festa seria maior. Então aqui algo já deve ser refletido, seguindo a lógica de mercado e limitando as variáveis ao que foi posto antes, o “futuro da nação” se sairia melhor na vida, como já dito, mas sendo necessário repetir, as variáveis da vida humana não podem ser isoladas, então essa dinâmica pode se modificar de várias maneiras. A mais interessante é que a noção de onde o instinto pode ser aplicado pode se inverter, pegar esse potencialidade que a direção do id permite ao indivíduo e aplicá-la para o desenvolvimento social seria de grande ajuda para todas as áreas, inclusive, isso já é perceptível em vários exemplos, no entanto, não podem apenas ser citados, a questão deve ser desenvolvida, para ficar mais simples é preciso limitar, pois os exemplos são muitos e dos mais variados, sendo assim, vamos analisar o caso de um “dono do morro”.
Poucos são os casos tão emblemáticos atualmente, no Brasil, quanto os de “dono do morro”. Praticamente presidente de um Estado paralelo, é realmente uma das maiores subversões da sociedade, pessoa que menos internalizou os costumes “corretos”, vai contra o Estado, brinca com vidas, manda e desmanda, sente-se o dono de todo território. Mas uma coisa é certo, é um fenômeno incrível, a intenção não é defender, justificar ou legitimar seu poder, mas saber reconhecer. Crescer no mundo do crime a ponto de virar “dono do morro” é algo absurdamente complicado. Como garantir sua vida em meio a pessoas que você precisa confiar mas não deve? Precisa, pois confiança não é questão de luxo é de sobrevivência, então para ter o poder e garantir sua legitimidade precisa de aliados, por outro lado, não pode confiar pois alguém pode te “derrubar” a qualquer momento, uma vez que os “aliados” não tem um código de conduta escrito, como uma constituição, ficam todos a mercê dos “costumes”, tudo fica um pouco mais difícil. Só uma pulsão de vida maximizada ao extremo poderia suporta a subida da escada, pode-se notar uma espécie de sucesso ou “superação” em tal aspecto. Por outro lado, essa mesma pessoa, poderia ser uma pessoa bem mediana em outro aspectos da vida, caso se rendesse ao sistema, mas um potencial gigantesco seria desperdiçado, poderia ser o próximo gênio da história, um futuro Einstein ou coisa do tipo caso seu potencial fosse dirigido para outro aspecto, mas não guiado pelo superego, mas sim potencializado id.
E isso é fácil de notar, por que em meio a tanta gente, uma quantidade tão pequena de pessoas se destaca? Por que demora tanto tempo para aparecer Einsteins? A resposta é simples, esses gênios, que participam da sociedade, seguindo seus costumes, não são guiados, na sua função fim, pelo superego, mas sim pelo id. Isso não se trata de uma subversão doentia nem nada, foi apenas direcionamento de potencialização, não cabe aqui também discutir o processo, mas o fato é que homens que se aplicam ao extremo a algo, como se aquilo fosse a única coisa do mundo, com certeza estão sendo potencializados pelo id. Einstein largou tudo na vida para se dedicar a sua pesquisa, esqueceu o preceito social de onde um grande gênio “deveria trabalhar” e passou boa parte do tempo de sua pesquisa trabalhando em um escritório de patentes. Steve Jobs, um dos nomes do séculos XXI, assim como Bill Gates, fizeram o sacrilégio de largar a sua formação para se dedicar ao seu instinto, seu id, suprimiram seu superego, deixando de lado os preceitos sociais, para seguir sua pulsão de vida potencializada em seus ramos de atuação. Leonardo Da Vinci é outro exemplo, era um acadêmico, mesmo sem ler latim que era a língua do livros acadêmicos da época, ele deixou o superego de lado, que teoricamente era o exigido para um “homem da ciência”, para seguir seus instintos, aproveitar seu id potencializando sua pulsão de vida, realizando suas invenções.
Agora é possível imaginar, no decorrer da história do mundo, o quanto de Da Vinci's, Einstein's etc que perdemos por não se saber direcionar a pulsão de vida ou trabalhar o id da maneira certa. Essa abordagem não visa dar uma abordagem completa sobre o tema, a reflexão visa contribuir para desenvolvimento desse gênero de questão e para o entendimento de que às vezes o maior “bandido” do mundo tem mais em comum com o maior gênio do que a pessoa que está na cadeira da faculdade.
Referências bibliográficas:
FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. In: Obras psicológicas completas de Sigmund Freud: edição standard brasileira. Rio de Janeiro: Imago, 1996.
FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. In: Brasileira das Obras Completas, Vol. XXI, Rio de Janeiro: Imago, Ed. Standard, 1974, p. 81-171.
FREUD, Sigmund. O Ego e o Id. In: Edição Standard Brasileira das Obras Completas, volume XIX. Tradução José Otávio de Aguiar Abreu. Rio de Janeiro: Imago, 1976.
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