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DIVERTIDA MENTE: A PSICANÁLISE EM UM FILME INFANTIL

  • Natália Taumaturgo Bento
  • 5 de nov. de 2015
  • 6 min de leitura

Universidade de Brasília:- UnB

Instituto de Psicologia- IP

Departamento de Psicologia Clínica-PCL

Psicologia da Personalidade 1- Turma B

Professora Dra. Elisa Walleska Kruger Alves da Costa

Aluna: Natália Taumaturgo Bento- Matrícula: 14/0029303

Este artigo tem como finalidade abordar as características psicológicas apresentadas no filme de animação "Divertida Mente", lançamento de 2015 pela Pixar Animation Studios. Procuro apresentar de que forma o filme explora a teoria psicanalítica, que simbolismos utiliza para tal e qual a mensagem que o filme carrega. Esses temas, os mecanismos emocionais da mente e a força das lembranças infantis, nunca antes haviam sido abordados explicitamente por um filme de animação da Pixar, o que gerou uma alta popularidade entre os espectadores e comentários muito positivos do ponto de vista da crítica. A partir dos temas discutidos, destaco a teoria psicanalítica pela visão de Sigmund Freud, além de outros teóricos da mesma área.

Palavras-chave: psicologia; filme infantil; abordagens psicanalíticas

Introdução

O presente artigo buscará desvendar as abordagens psicanalíticas que o filme Divertida Mente apresenta. Tendo como título original Inside Out, o filme carrega um questionamento acerca de como o interior da mente humana funciona, como ocorrem suas conexões e, o mais importante, o lugar reservado para as memórias. A ideia é apresentar os personagens(os sentimentos) asssistindo à vida do interior da cabeça, da mente de Riley(a dona dos sentimentos), o que dá ênfase ao trabalho neuro científico que acontece em seu interior e não apenas ao que acontece na realidade exterior.

Uma das principais discussões entre as personagens da mente de Riley (as emoções Alegria, Raiva, Tristeza, Nojinho e Medo), se dá a respeito do destino que cada memória da menina levará. E é aí que o filme dialoga com a teoria psicanalítica de Sigmund Freud: as memórias podem ser ou armazenadas no consciente ou no insconsciente da garota.

Além disso, o filme aborda um dos sentimentos humanos que tanto gera conflito: a tristeza. Natural, presente, mas pouco falada, até mesmo, ignorada.

1 Simbolismos psicanalíticos

Para o psicanalista Sigmund Freud, há uma espécie de "iceberg" que serve como simbolismo para a nossa mente, que é dividida entre a consciência e a inconsciência, sendo a inconsciência a maior parte desse iceberg, a parte submersa e que não é possível ser vista, apenas se "mergulharmos" em uma análise. A inconsciência seria, então, tudo o que é incômodo para si e para a sociedade.

No filme, as memórias são representadas como "bolinhas de vidro" que são enviadas através de canos, ou para o reservatório de memórias felizes, ou para o reservatório de memórias infelizes. Há, também, o "lixão", que é o campo do esquecimento. Assim como na teoria freudiana, os sentimentos é que comandam e decidem para onde serão enviadas as memórias. Se uma memória for apta a ficar no campo da consciência, ela pode ser lembrada e transforma-se em memória-base, caso não, é colocada na inconsciência.

O conceito de "recalque psicanalítico" também pode ser analisado na animação. O recalque, mecanismo de defesa, é o conjunto de lembranças negativas, de medos, são os registros traumáticos, ou seja, tudo que a nossa mente "prefere" esconder, jogar em um plano inconsciente para não termos que lidar com aquilo. Em um dado momento do filme, quando, acidentalmente, uma "bolinha" de memória negativa é iluminada, Riley lembra-se de uma ocasião de instabilidade emocional na família. Essa lembrança é retratada no filme como um erro, a lembrança negativa escapou do plano inconsciente, quando deveria ter ficado lá, por meio desse pilar que é o recalcamento. "A Teoria do Recalcamento é a pedra angular em que assenta todo o edifício da Psicanálise". (FREUD, Sigmund).

Podemos, ainda, estudar o funcionamento do Id, do Ego e do Superego na personagem Riley. O Id são os impulsos ditos "egoístas"(o correto seriam ser "idistas"), nosso lado animal que nasce conosco, são os nossos instintos. O Superego seria uma coleção de regras de "como ser bom", ou seja, o oposto do Id. O Ego, então, seria o mediador entre eles.

Na trama do filme, Riley muda-se de cidade por obrigação, logo, indo contra ao Id, que seria seu impulso dirigido ao prazer. Porém, em alguns momentos e, dependendo de quais sentimentos a "controlavam", o Id dava lugar ao Superego e, então, Riley sentia-se tentada a fazer o certo, que seria aceitar morar na nova casa, ficar bem com sua famílía. Há um momento em que a personagem, controlada pelo Id, foge de sua casa e segue seus instintos de retornar ao prazer. Ela, então, direciona-se à sua antiga casa. Porém, enquanto dirigia-se até lá, o Superego assume novamente seu posto e ela percebe que o correto seria voltar para sua atual casa e obedecer aos seus pais. É importante ressaltar que os termos Id, Ego e Supergo não aparecem no filme, mas é possível extraí-los ao se analisar psicologicamente a garota Riley.

Um aspecto muito importante abordado no filme é a importância em se falar sobre os sentimentos negativos, como a tristeza, o medo e a raiva. Principalmente em relação à tristeza, a psicanalista Ana Laura Giongo destaca:

No filme, a Alegria tenta garantir um destino que exclua as memórias tristes e acaba por produzir uma confusão de sentimentos. A relação entre Alegria e Tristeza retrata a forma como nossa cultura lida com a tristeza: ela tem que ficar "presa", é inútil e incômoda. Assim, uma das riquezas do filme é dar à tristeza um lugar de valor: um sentimento necessário, que permite refletir e dar sentido à experiência vivida.

Sigmund Freud, em “O Mal-estar na Civilização”, também afirma o valor da tristeza:

Aquilo que em seu sentido mais estrito é chamado de felicidade surge antes da súbita satisfação de necessidades represadas em alto grau e, segundo sua natureza, é possível apenas como fenômeno episódico.

As crianças(e os adultos) tem de saber que é normal a sua existência e que eles também "habitam" a nossa psique.

Na visão freudiana, os sonhos não são premonições ou meros símbolos, mas sim parte do nosso inconsciente. Em “A Interpretação dos Sonhos”, Freud destaca que essas formações de imagens durante o sono são geradas através dos desejos reprimidos no período de vigília, ou seja, no período em que se está acordado.

2 Depressão não é tristeza

Em Divertida Mente, um dos sentimentos retratados na forma de uma personagem é a Tristeza. Ela age sempre para baixo, desmotivada, sem vontade de fazer as coisas, sempre muito pessimista. Agora, o que não se pode confundir é que uma das doenças psíquicas estudadas por Freud, a depressão, não é esse estado emocional. Apesar de terem reações em comum, a depressão é considerada uma doença e a Tristeza, não, até por isso é retratada e incentivada no filme a ser considerada uma atitude normal aos seres humanos.

O psicanalista Sigmund Freud, em seu texto “Luto e Melancolia”, utilizando do conceito “melancolia”, tratava do que hoje é chamado de “depressão”:

O paciente representa seu ego para nós como sendo desprovido de valor, incapaz de qualquer realização e moralmente desprezível… Esse quadro de um delírio de inferioridade (principalmente moral) é completado pela insônia e pela recusa a se alimentar, e o que é psicologicamente notável por uma superação do instinto que compele todo ser vivo a se apegar à vida.

É claro que nenhuma depressão ocorre da mesma forma em mentes distintas, mas os sintomas gerais, entre outros, são esses, podendo variar em grau. O que se deve frisar, ao assistir a animação da Pixar é que não é porque alguém sente tristeza que está em depressão, sentir-se triste faz parte da natureza e da fisiologia humana. Algumas personalidades são mais sensíveis que outras e determinadas situações geram mesmo a tristeza. E, também, quando alguém é diagnosticado como depressivo, não deve ser tratado simplesmente como alguém triste. Esse paciente merece cuidados e, como qualquer doente, medicação.

Considerações Finais

Em linhas gerais, procurei ilustrar e expor nesse ensaio os principais diálogos estabelecidos entre o filme infantil Divertida Mente e as teorias psicanalíticas de Sigmund Freud. Dentre elas, o conceito do Recalcamento, a teoria dos sonhos na concepção freudiana, bem como a ideia de Freud a respeito da tristeza em “O Mal-estar na Civilização”. Considerei essencial fazer a conexão com a teoria psicanalítica, já que o filme claramente aponta para esse tipo de comportamento e explicação científica nos processos mentais humanos. Portanto, para uma melhor análise e compreensão da dimensão de conteúdo psicológico que o filme da Pixar possui, indico a psicanálise Freudiana e pós-freudiana como alvo de estudos para completamentação interpretativa desse recurso audiovisual de entretenimento e educação.

Referências

TOMASELLI, Tovar. Freud e o Conceito de Recalcamento. Disponível em: <http://www.redepsi.com.br/2007/11/11/freud-e-o-conceito-de-recalcamento/>. Acesso em: 02/11/2015.

TOSO, André. Felicidade, no singular, não existe. Disponível em: <http://www.sppsic.org.br/blog/?p=855#more-855>. Acesso em: 02/11/2015.

GIONGO, Ana Laura. Psicanalista Ana Laura Giongo, sobre "Divertida Mente": de dentro para fora. Disponível em: <http://zh.clicrbs.com.br/rs/entretenimento/noticia/2015/06/psicanalista-ana-laura-giongo-sobre-divertida-mente-de-dentro-para-fora-4789707.html>. Acesso em: 02/11/2015.

DE SOUZA, Felipe. Psicanálise: Depressão e Melancolia. Disponível em: https://www.psicologiamsn.com/2011/12/psicanalise-depressao-e-melancolia.html. Acesso em: 03/11/2015.

Bibliografia Consultada

BRENNER, Charles. Noções básicas de psicanálise. 5ª edição. <http://educacao.uol.com.br/disciplinas/biologia/psicanalise-a-mente-segundo-a-teoria-de-sigmund-freud.htm>: Editora Imago, 1975. 260.

BRUNO LOPES, Rosimeri. Os Sonhos na Concepção de Freud. Disponível em: <https://psicologado.com/abordagens/psicanalise/os-sonhos-na-concepcao-de-freud>. Acesso em: 02/11/2015.


 
 
 

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