AS RELAÇÕES AFETIVAS NA SOCIEDADE OCIDENTAL CONTEMPORÂNEA À LUZ DA TEORIA DE ALFRED ADLER
- Larissa Martins de Mello Fernandez
- 5 de nov. de 2015
- 6 min de leitura

A dinâmica das relações afetivas na coletividade ocidental constitui o produto de transformações sociais e políticas ao longo da história. Se desenvolveu a partir da ótica de uma cultura narcisista e individualista que culmina adoecimentos psíquicos nos indivíduos, dispersos em um contexto de instabilidade excessiva e estipulação de padrões e normas que os engessam pela manutenção da ordem, até mesmo em suas vidas particulares.
Através da ótica psicológica, buscou-se neste trabalho a vinculação das teorias neo psicanalíticas da personalidade, de Alfred Adler (1870-1937) a estas questões. Por considerar que diferentes perspectivas de análise são cabíveis dentro desta temática, há de se salientar que a escolha do teórico não foi realizada pela crença de esta ser a mais assertiva em termos de comparação; e sim pela ênfase que Adler atribuiu a evitar rotulações deterministas das motivações do indivíduo, como ser social, na busca por suas realizações pessoais e sociais.
A cultura consumista foi engenhosamente consolidada através de veículos, como as grandes mídias, que até hoje visam assegurar sua prevalência. De modo a oferecer o atendimento das necessidades subjetivas foi se configurando a antigos valores e englobando todas as ambições que permeiam as vivências sociais dos indivíduos de uma sociedade contemporânea; chegando à construção de novos valores. As relações sociais afetivas, que agora se encontram contaminadas pela ótica individualista, configuram a busca do outro, como objeto de desejo a ser consumido. Não mais é enviesada a aspiração pela consolidação de valores oriundos de ideias românticos ou sociais, ou políticos, como foi outrora. É a lógica da satisfação de demandas centradas na manutenção da subjetividade.
Alfred Adler trouxe a noção de indivíduos potencialmente influenciados pelo meio social, em comparação com influências biológicas deterministas da personalidade. Afirmou que buscavam, por meio de compensação, sanar seus sentimentos de inferioridade adquiridos ainda na infância; fase esta em que o indivíduo ainda não possui autonomia de suas ações no meio social e, portanto, se vê frustrado e em impotência, diante da autoridade dos pais.
A frustração advinda destes sentimentos de inferioridade seria a principal motivação que este indivíduo necessita para agir e alcançar seus objetivos. E todo o conjunto de características e hábitos que agem sobre o comportamento dele, ao longo de sua vida, caracteriza o que Adler chamou por estilo de vida; formado nos primeiros quatro ou cinco anos de vida; e dificilmente mutável no futuro. Era formado com base nas experiências dos indivíduos.
Para ele, os eventos passados teriam contribuição pela interpretação que os indivíduos fariam destes. Esta noção teve prosseguimento com a elaboração do conceito de poder criativo do self, no qual atesta que o indivíduo possui autonomia sobre a formação de seu estilo de vida; e, portanto, não é uma vítima de seu passado.
A sociedade busca constantemente igualar todos através da criação de padrões que facilitem sua manutenção e que são transmitidos desde o nascimento. Mas para Adler, embora sejam seres sociais, cada um apresenta suas próprias crenças, que culminam em suas maiores motivações. Finalismo de ficção é conceito que ele traz, consistindo em ideias potencializadas e não realistas, que direcionarão o comportamento do indivíduo em busca de sua completude. Afirma que a maior formulação de perfeição que os indivíduos apresentam na sociedade é a noção de uma divindade (Schultz; Schultz, 2013). Sua motivação, portanto, se tornaria posteriormente uma busca para além da superação de suas inferioridades.
Através deste apanhado acerca das principais teorias de Adler, é possível traçar um paralelo com o curso histórico da noção do amor e de como esta se flexionou diante das configurações sociais vigentes. Guedes & Assunção (2006) trazem uma análise da noção de amor desde a antiguidade, em que o caráter relevante da afetividade era seu conteúdo - alegria pela conquista ou pesar pela ausência. A união entre dois indivíduos na civilização grega era de interesse da polis.
Posteriormente, a lógica judaico-cristã asseverou que uniões matrimoniais era um campo sagrado que deveria ser isento de atividades de cunho sexual; consideradas profanas por simbolizarem a busca dos sujeitos de obterem prazer um pelo outro. Era permitido, no entanto, que o homem buscasse suprir suas necessidades sexuais fora do casamento, como em prostíbulos, pois isto o estabilizava dentro da ordem familiar.
A consolidação do Feudalismo atribuiu os laços matrimoniais às relações de poder entre as famílias nobres, na qual o casamento era efetivado visando à vassalagem. O amor cortês nasce em oposição a esta ordem, simbolizando uma relação onde o objeto de desejo era a pessoa cortejada. Este amor reflete o primeiro passo para a noção de amor romântico da sociedade moderna, por marcar a subjetivação em que o indivíduo passará a pensar sua história pela presença ou ausência do outro. Consistir em um amor dotado da fragilidade do indivíduo, perante a solidão. E a própria busca sexual externa aos laços afetivos, parece representar a oscilação entre falta inconsciente e necessidade social estrutural.
A nova configuração das cidades, devido ao desenvolvimento tecnológico e crescimento das cidades urbanas na primeira metade do século passado modificaram a visão que os indivíduos tinham de si e a forma de se relacionarem. Inicialmente a vida íntima era compartilhada. Especialmente no campo. A urbanização trouxe a criação de espaços dotados de privacidade dentro do lar. E a privacidade trouxe a noção do corpo como identidade; não mais como mero instrumento do outro regulador, como o estado ou a igreja. Este olhar diferente tornou os sujeitos mais individualizados e ambiciosos por cuidados com sua vaidade. A necessidade de constituir uma família deixou de ser prioritária em relação à manutenção do autoconceito. Indivíduos alheios à classe burguesa, que antes despunham apenas da posse de pequenos de pouco – e ainda assim mantidos em sigilo - agora faziam uso de adereços que buscavam afirmar sua imagem estética. Busca esta, acentuada pela forma como a publicidade acompanhou tais mudanças. Padrões estéticos foram surgindo por necessidade de vender um desejo de consumo, que posteriormente faria parte da busca existencial do indivíduo, e refletindo na busca de companheiros também idealizados. (Prost & Vicent, 1992).
As uniões modernas tornaram-se pautadas no desejo amoroso que um tinha pelo outro e não necessariamente deveriam acontecer através do matrimônio. No entanto, ainda apresentava problemáticas como a formulação sexista em uma família moderna. E embora a sociedade ainda se encontre engessada em uma configuração patriarcal, os processos que ocorreram no último século, com a luta das mulheres por seus direitos e consequente conquista dos espaços alheios ao lar, abriram possibilidades como a busca constituição de uma carreira; e aquisição de um papel social mais independente da figura masculina.
Avanços à parte, a sociedade caminhou para uma realidade ilusória, em que não é mais permitido sofrer ou sentir dor; em que a busca do outro se faz pela aparência exterior e não mais a interior; a identidade do outro não mais é aquilo que exerce e sim o que consome; a liberdade individual é a busca que está acima de qualquer outra; e há forte exaltação da quantidade, em relação à qualidade; bem como exaltação das atividades sexuais desvinculadas a uma união estável.
Conforme analisou Bauman (2004 apud SCHMITT, IMBELLONI, 2011), as relações contemporâneas são dotadas de incerteza e insegurança, por serem formadas por pessoas que buscam relações íntimas, mas ao mesmo tempo buscam fugir dos laços que atingem cada uma delas separadamente. O imediatismo que permeia essas buscas oferece manuais de bolso de parceiros, criando uma padronização em que os indivíduos que não atendem a essa demanda são facilmente descartados. Essa mutabilidade entra em conflito com a demorada construção que os relacionamentos demandam e com a própria representação e subjetivação do amor romântico representado na base.
CONCLUSÃO
Há de se considerar que muitas metas que os indivíduos estabelecem, são impensáveis e inalcançáveis. Muitas metas pessoais se confundem com metas sociais e acabam por gerar sofrimentos psíquicos tão visíveis na população em geral. A mesma autossuficiência que exigem de si, conflita com a fusão com outro, da qual acreditam necessitar. Certamente um dos piores agravantes para as frustrações que derivam do chamado ‘sentimento de vazio’ é o próprio ato de depositar no outro a busca pela perfeição que Adler elaborou. E ainda que reconheçam as problemáticas que circundam suas buscas, os indivíduos utilizam o mesmo imediatismo na procura pelas soluções ilusoriamente mágicas, na crença de que a sociedade evoluiu de tal maneira que para tudo há uma resposta rapidamente pronta, estes processos.
Adler agrupou problemáticas da sociedade contemporânea em três classificações gerais: problemas profissionais; problemas amorosos; e relacionamento com outras pessoas. Segundo ele, os indivíduos são seres que exercem interesse social, buscando ajudar o próximo. Embora não se pretenda aqui, defender uma solução de bolso, tal predisposição ao interesse social, que ele julgou inata, pode ser facilmente estimuladora, no tocante a pensar as mobilizações coletivas que resultaram em todas as rupturas de vícios da ordem, gerando inúmeras transformações sociais e refletindo a capacidade de ter um olhar humanizado com o outro.
As formulações de Alfred Adler foram desenvolvidas a partir de estudos de caso. Ele não apresentava preocupações com a utilização de métodos de pesquisa precisamente científicos. Compôs uma série de conceitos que aqui não seria possível desmiuçar; porém todos envolvem o protagonismo do indivíduo perante a formação de seu autoconceito.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
GUEDES, D. ; ASSUNÇÃO, L. Relações Amorosas Na Contemporaneidade e indícios do colapso do amor romântico. Revista Mal-Estar e Subjetividade. Fortaleza, v.6, n.2, p. 396-425, Set. 2006. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1518-61482006000200007>. Acesso em 30 out. 2015.
PROST, A.; VICENT, G. História da Vida Privada: da Primeira Guerra a nossos dias. Volume 5. São Paulo: Cia. Das Letras, 1992.
SCHMITT, S. ; IMBELLONI, M.. Relações Amorosas na Sociedade Contemporânea. Psicologia.pt - O Portal dos Psicólogos. Rio de Janeiro, Set. 2011. Disponível em: <http://www.psicologia.pt/artigos/textos/A0583.pdf>. Acesso em 30 out. 2015.
Schultz, D. P.; Schultz, S. E. Teorias da Personalidade. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2013.
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