A psicologia e o teatro
- Nina Roberto de Figueiredo Costa
- 5 de nov. de 2015
- 5 min de leitura
Universidade de Brasília – UnB
Departamento de Psicologia
Psicologia da Personalidade – prof Elisa Walleska
Aluna Nina Roberto de Figueiredo Costa (13/0128538)
A psicologia eo teatro
A psicologia, por se tratar de uma ciência que abrange todos os seres pensantes, é aplicável a quase tudo o que vivemos no nosso dia a dia e é muito engraçado como o fato de aprendermos mais sobre o que se passa na cabeça dos seres humanos muda a nossa percepção enquanto sociedade. É muito importante termos uma noção mínima do que há por dentro das pessoas até para potencializar a nossa interação como outro e assim melhorar nossa convivência enquanto sociedade, fora que estudar sobre isso nos instiga a querer saber cada vez mais sobre os indivíduos de forma parrticular. Por exemplo, sou aluna de artes cênicas e já é a segunda disciplina do departamento de psicologia que eu tenho a oportunidade de fazer e que me faz querer analisar todos os meus colegas e familiares, mesmo sabendo que o meu conhecimento nessa área é extremamente raso e que não possuo capacidade alguma para julga-los, ou me segurar para não tentar me auto avaliar diante de algum conceito estudado.
Porém, para não correr o risco de julgar erroneamente um caso em, escolhi me prender à minha área de domínio para dissertar neste trabalho. Escrevendo-o pude perceber em pequenas sutilezas que ambos os campos de conhecimento se interligam várias vezes e acredito que um estudo mais profundo sobre essas semelhanças possa gerar um novo tipo de fazer artístico e um resultado final digno de um TCC, por exemplo.
Dentro do universo artístico existem várias situações que merecem um estudo psicológico e filosófico para que possamos entender melhor e eu, como aspirante à atriz, posso dizer que tenho crescido muito na prática com essas investigações teóricas. Neste artigo busquei comparar os conceitos estudados dentro do departamento de artes cênicas com os da disciplina de psicologia da personalidade.
Eu sinceramente acredito que todos nós atores, mesmo que sem perceber, realizamos em nossos ensaios e exercícios teatrais sessões de piscodrama e aos que se apaixonaram e resolveram tornar isso sua profissão, são as que mais surtiram efeito. Minha compreensão do que é o psicodrama é uma necessidade inata de se deixar transbordar o que há dentro de nós para o mundo externo através de nossos corpos e suas linguagens pessoais, no caso induzida por estímulos com embasamentos teóricos diretamente ligados aos que grandes teóricos do teatro propõem. Seguindo pela A Poética de Aristóteles, o sentimento que o espectador deve atingir ao assistir uma tragédia é o de redenção pós o efeito de catarse, mas esse sentimento só pode ser transmitido à um segundo se houver veracidade no sentimento do ator e, portanto, a identificação como herói, a resolução do terror para se ter a piedade e por fim a catarse devem ser mútuos. Ou seja, desde a criação do teatro enquanto tragédia, essa linguagem pode ser tratada como uma “terapia”.
No teatro temos a possibilidade de criar a partir de um personagem já existente ou de experimentações pessoais em interação com o grupo. No primeiro caso, trabalhamos com a nossa visão e interpretação do que se passa com um personagem escrito por uma terceira pessoa, exercitando assim a nossa capacidade de alteridade para aplicarmos a nossa percepção à cena. Constantin Stanislavski em sua famosa obra “A preparação do ator” relata essa identificação de conceitos de forma muito evidente: ele afirma que o ator deve de fato sentir o que o personagem sente criando circunstâncias internas* que levem o ator ao mais próximo do que o personagem estaria sentindo e é nítido quando o ator força essas circunstâncias, logo, para Stanislavski,uma boa atuação vem quando o ator é capaz de associar a sua emoção com a do outro.
Já no segundo caso, podemos fazer uma associação ao que Grotowski propunha em seu teatro físico, em que o ator obtém o resultado mais genuíno a partir da exaustão física, quando se encontra à flor da pele e prestes a expor toda sua essência suprimida pela necessidade de se enquadrar nos padrões impostos e ser socialmente aceitos. Logo, além de fazermos a ligação com o psicodrama, podemos também citar Freud e suas estruturas de personalidade: Id, ego e super ego. Acredito que no teatro físico quem está em cena é basicamente o Id do ator, pois a exaustão suprime qualquer necessidade de polidez
Outro conceito bastante presente não só na psicologia, mas na filosofia e nas artes é o pregado por Carl Gustav Jung, principalmente por tratar sobre os arquétipos e o inconsciente coletivo que estrutura o fazer artístico. É possível generalizar dentro de um leque de personagens, peças, contextos e estímulos uma única persona para cada tipo de situação e essa persona pode ser “o suficiente” para resolver aquele conflito dentro de um espetáculo. Falando de forma análoga, o que Jung quer dizer é exatamente o que os clássicos da Commedia Dell’arte faziam: determinaram os personagens fixos (arquétipos) e o enredo decorria a partir da interação e conflitos entre essas personalidades pré-estabelecidas. Tais personagens também podem ser estudados isoladamente e analisados de acordo com suas características fixas uma vez que
“Arquétipo
2. Um estudo tipológico das personagens dramáticas revela que certas figuras procedem de uma visão intuitiva e mítica do homem e que elas remetem à complexos ou à comportamentos universais. Dentro desta ordem de ideias, poder-se-ia falar de Fausto,Fedra ou Édipo como personagens arquétipos. O interesse de tais personagens é ultrapassar amplamente o estreito âmbito de suas situações particulares segundo os diferentes dramaturgos para elevar-se a um modelo arcaico universal.O arquétipo seria portanto um tipo de personagem particularmente genérico e recursivo dentro de uma obra, uma época ou dentro de todas as literaturas mitológicas.” (Pavis; 2008,p. 24)
A própria maneira como o ator interpreta um personagem é bastante ligada aos conceitos de Jung uma vez que, para ele, o agir vem de forma instintiva e relacionado ao inconsciente coletivo, da mesma forma em que um ator improvisa intuitivamente alguma ação baseado em alguma situação já vivenciada por ele ou por outros.
“Ação visível e invisível: Sequência de acontecimentos cênicos essencialmente produzidos em função do comportamento das personagens, a ação é, ao mesmo tempo, concretamente, o conjunto dos processos de transformações visíveis em cena e, no nível das personagens, o que caracteriza suas modificações psicológicas ou morais”( Pavis; 2008, p. 2)
A ação cênica só acontece a partir de um conflito e seu desfecho se dá por soluções oriundas do texto, porém sob o olhar de que a interpreta daí a subjetividade cênica. O ator exerce a função de se comportar de diversas formas diante de milhares de situações que possivelmente nunca foram vivenciadas por ele, logo, sua capacidade de abstração deve ser vasta. Para tanto, exploramos em nossos exercícios as nossas memórias mais distantes e os estímulos de nossos cinco sentidos em busca de alguma emoção que seja próximo á aquilo que o autor propõe, por isso um mesmo papel interpretado por diversos atores possuem divergências que vão além das marcações gestuais.
Além das análises voltadas à interpretação, também podemos analisar várias outras instâncias relacionadas a dramaturgia e ao fazer teatral envolvendo o parecer psíquico dos autores, questões estéticas da cena e o efeito do teatro sob o espectador.
O teatro possui enorme capacidade de influência sob o ser humano e aplicar conceitos psicológicos à cena faz com que essa capacidade seja ainda mais potente e eficaz.
Bibliografia
PAVIS, Patrice. Dicionário de teatro. Tradução: J. Guinsburg e Maria Lúcia Pereira. Ed. Perspectiva: São Paulo, 2008.
STANISLAVSKI, C. A preparação do ator. Tradução: Pontes de Paula Lima. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 29ª edição, 2012.
CAMPBELL, J. O Poder do Mito. Tradução : Carlos Felipe Moisés. São Paulo: Palas Athena, 29ª edição, 2012.
GROTOWSKI, Jerzy. Em busca de um teatro pobre.Tradução: Ivan Chagas. São Paulo: Dulcina Editora, 2ª edição, 2011.
SCHULTZ, Schultz. Teorias da personalidade. Ed. Cenage, 2010.
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