Jacob Levy Moreno e o Psicodrama
- Gabriel Neves
- 4 de nov. de 2015
- 6 min de leitura
Universidade de Brasília
Disciplina: Psicologia da Personalidade Turma: B
Professora: Elisa Walleska Krüger Costa
Aluno: Gabriel Cavalcanti das Neves Moura Matrícula: 12/0167433
O teatro pode ser considerado uma das formas de expressão mais antigas do ser-humano. Retomando ritos dionisíacos da Grécia antes de Cristo, há provas que as expressões teatrais existem desde antes dos quatro grandes gregos (Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e Aristófanes), citados pela primeira vez num escrito artístico: a Poética de Aristóteles. Em sua Poética, Aristóteles definiu os conceitos de comédia, drama, jornada do herói, tragédia, tempo e espaço, que são utilizados e estudados até hoje em meio teatral, mas o que é grande para o nascimento do psicodrama, após alguns séculos, é a definição de catarse. Segundo o grego, catarse é a expurgação de emoções do público, que após acompanhar a vida representada, purifica-se com o final do último ato, independente de acabar de maneira boa ou má.
Já no início do século XX, Jacob Levy Moreno (1889 - 1974) retoma tal definição de maneira a auxiliar e estudar os efeitos terapêuticos de tal instrumento para com o ambiente social. Desde pequeno, Moreno já tinha afinidade com o teatro. O romeno formou-se em medicina na Universidade de Viena, mas o teatro ainda se mostrava uma inquietação. Como experimento, criou em 1921 o Teatro da Espontaneidade em Viena, onde ele encenava ações das vidas cotidianas sem falas, apenas definindo os personagens na hora com os voluntários disponíveis. Neste meio que em 1923 ele conhece o casal Bárbara e George, participantes do Teatro Espontâneo. Primeiramente, Bárbara apenas encenava papéis doces e afáveis, mas Moreno ouvia do marido que em casa ela apresentava comportamentos opostos dos representados. Após um tempo, o diretor/psicoterapeuta passou a dar a Bárbara papéis de megeras, o que resultou numa melhoria na vida doméstica e amorosa do casal. Vendo os efeitos sobre ambos, Moreno seguiu em frente com sua teoria e se mudou para Nova York em 1925 para continuidade de seus estudos.
O uso da expurgação dos sentimentos num “palco” serviu como estopim para a busca de sua teoria denominada Socionomia, que buscava as normas dos relacionamentos sociais. Esta teoria acaba por ser dividida em três partes: a sociometria (que mede as relações de afastamento e aproximação entre os membros de um grupo), a sociodinâmica (que se interessa pelo grupo como um todo e sua dinâmica) e a sociatria (que é o tratamento das relações grupais).
O Psicodrama faz parte deste terceiro grupo, já que é um tratamento por meio do teatro, da psiquiatria e sociologia, como o próprio criador dizia. Moreno buscava a espontaneidade em suas cenas pois, segundo ele, só o espontâneo pode trazer a catarse para o ambiente. O estado catártico de Moreno significa buscar algo inconsciente por meio de uma atividade não-rotineira, que obriga os participantes a usar o que há dentro de si como material de estudo e de ação para criação dos vínculos. O conceito de espontaneidade vem do momento, do aqui e agora, de como o indivíduo reage de forma a se adaptar a uma nova situação apresentada.
Por trabalhar com mais de uma pessoa em sua forma psicodramática, Moreno tende a analisar aquele que precisa “trazer a mente para fora”, a catarse, de forma a conhecer aquilo que tende a ficar interno. Os componentes de uma representação psicodramática são o protagonista (aquele que é analisado, podendo ser uma ou mais pessoas); o diretor (o psicoterapeuta); os egos-auxiliares (aqueles que contracenam com o protagonista); e a plateia, que apenas assiste. O Psicodrama consiste no protagonista assumir um papel e representa-lo com algumas intervenções do diretor até atingir a forma terapêutica de conhecimento e autoconhecimento. Isso é feito por diversas técnicas, como a do duplo, a do espelho e a da inversão de papéis. Todas elas consistem no protagonista estar em contato com um ego-auxiliar de forma a se ver de alguma maneira. O duplo tem a função de intuir o que se passa dentro de protagonista de maneira que ele não quer expurgar, como alguém tentando entender o outro por meio de diversos chutes. O espelho faz com que o protagonista assista alguém interpretando a ele com a imagem que existe no grupo daquele que é representado. A inversão de papéis troca o status de quem representa e faz com que o protagonista também se assista na forma de outra pessoa, mas agora indo de frente por meio de ações espontâneas. A identificação em alguns atos e representações podem levar ao autoconhecimento, ou, dentro dos estudos de Moreno, ao Tele – ato de saber o que acontece entre as relações, ver de fora – por meio da Empatia, que é a capacidade de se colocar no local do outro.
Esta representação de papéis comuns está inerente à personalidade do ser-humano, já que em todos existe um devir de ser, a possibilidade de ser o que não é e, assim, acabar tornando-se para meio de entendimento. Para Moreno, a escolha de representação de papéis de cada indivíduo está ligada à identidade. A importância do grupo em uma sessão de psicodrama consiste na identidade ser associada tanto com o que o self enxerga de si quanto com o que os outros enxergam do self. A partir daí, nasce um livre-arbítrio, uma aquisição de algo próprio que fundamenta a Teoria dos Papéis, também criada por Moreno. Para Moreno, cada identidade, cada papel possuí três vertentes. Existe um papel psicossomático, que é altamente fisiológico e busca entender necessidades como motivações para relações de suprimento; um papel social, que entende as relações do indivíduo quando inserido no meio do que faz parte e suas necessidades em relação ao outro; e o papel psicodramático, que surgem quando o eu se percebe necessário em relação ao outro e serve como uma linha tênue entre a realidade e o fantasioso.
Entendendo isso, temos também o princípio de formação de identidade criado por Moreno com base na teoria da espontaneidade, ligando todos os conceitos aprendidos até agora. O que Moreno buscou fazer em sua teoria foi recriar a criança do homem, idade de maior espontaneidade-criatividade, para que se possa realizar um diagnóstico. Para o teórico, existem três fases na construção social da criança.
Primeiramente existe a fase Eu com Tu, onde a criança necessita de alguém que a compreenda para a satisfação de seus prazeres fisiológicos (papel psicossomático). Este papel é assumido pela figura materna, o primeiro ego-auxiliar que temos na vida por ser a geradora, por ser o duplo da fase na questão de intuir e entender o que se passa. Nesta fase, tudo é experimentado como um todo, sejam pessoas ou objetos, e as relações apreendidas acabam sendo somadas para construção de novos papéis. Assim é a Matriz de Identidade Total.
A segunda fase é chamada de Reconhecimento do Eu, que como o próprio nome diz, refere-se a se conhecer e saber quem é pelo reconhecimento da imagem de si próprio, já com um entendimento de suas relações em sociedade. Nesta fase surge o exercício do espelho, de se observar e, primeiramente, estranhar uma imagem equivalente de si para depois compreender que aquilo é um encontro para o autoconhecimento.
A terceira e última fase é o Reconhecimento do Tu. Quando a criança já se encontra com percepção de suas relações e já sabe como se projeta seu reflexo, ele começa a poder descobrir o outro e, assim, desempenhar os diversos papéis que acumulou para relacionar e compreender o que significa em grupo. Nesta fase surge a inversão de papéis, e é aqui que se constroem imagens para diferenciar o real do imaginário. Assim nasce o papel social (relações reais com o outro – pessoa, objeto) e o papel psicodramático (relações imaginárias com a projeção do outro feita por meio do self). Aqui existe a Matriz de Identidade Total Diferenciada e a Matriz da Lacuna entre Fantasia e Realidade.
Moreno considera estas três fases essenciais para o bom funcionamento dos papéis, afinal só há percepção quando se entende as relações; e só se entende as relações quando o homem é capaz de compreender o que é para si próprio. O adoecimento, segundo Moreno, é inclusive uma forma de mostrar que há uma falha nesta construção das três etapas que não permite o bom funcionamento dos papéis.
BIBLIOGRAFIA
DISPONÍVEL EM: https://pt.wikipedia.org/wiki/Psicodrama. Acessado em 02/11/2015 às 16h13.
DISPONÍVEL EM: https://pt.wikipedia.org/wiki/Jacob_Levy_Moreno. Acessado em 02/11/2015 às 16h13.
DISPONÍVEL EM: http://periodicos.unb.br/index.php/linhascriticas/article/viewFile/8723/6571. Acessado em 04/11/2015 às 14h30.
DISPONÍVEL EM: http://www.febrap.org.br/pdf/Aspectos_Teoricos_Filosoficos_psicodrama.pdf. Acessado em 04/11/2015 às 14h43.
DISPONÍVEL EM: http://repositorio.uscs.edu.br/bitstream/123456789/131/2/Teoria%20Psicodramatica.pdf. Acessado em 04/11/2015 às 15h32.
DISPONÍVEL EM: https://psicologado.com/abordagens/psicodrama/uma-compreensao-sobre-o-psicodrama. Acessado em 02/11/2015 às 18h02.
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